Talvez tenha sido no meio de uma discussão, ou numa frase que escapou da sua boca antes que você pudesse pensar, e veio com aquele tom, aquela cobrança, aquele jeito de magoar ou de engolir que você conhecia tão bem. Por uma fração de segundo, você gelou, porque reconheceu na hora: aquilo não era a sua voz, era a dela.
Você passou a vida inteira jurando que não seria assim. Quando olhava para a sua mãe, prometia em silêncio que com os seus filhos seria diferente, que não cobraria do jeito que ela cobrava, que não calaria do jeito que ela calava, que não repetiria com eles o que fizeram com você. E, no entanto, depois de tanto esforço, aqui está você, ouvindo a voz dela sair de dentro de si.
Se isso te incomoda, eu preciso te dizer uma coisa antes de qualquer outra: não é falta de caráter, não é fraqueza, nem é que você não tenha se esforçado o suficiente. Você se esforçou muito, jurou com todas as forças que tinha, e é exatamente por isso que dói tanto perceber que chegou aqui mesmo assim.
Por que a gente vira exatamente o que jurou combater
Existe uma armadilha silenciosa dentro das famílias, e ela funciona de um jeito quase cruel: aquilo que a gente jura combater costuma ser justamente o que a gente repete. Não por escolha, mas por uma espécie de lealdade que age sem pedir licença.
Lealdade é uma palavra estranha de usar aqui, eu sei, porque ninguém é leal de propósito a uma dor. Acontece que o sistema familiar tem uma força própria, e essa força pede, em silêncio, que ninguém fique de fora, que ninguém escape sozinho, que ninguém seja diferente demais dos que vieram antes. Quando você jura "não vou ser como ela", acredita estar se separando da sua mãe, mas combater alguém é também uma maneira de continuar amarrada a essa pessoa, porque você acaba organizando a sua vida inteira em torno do oposto dela, e o oposto, no fundo, ainda é sobre ela.
O que talvez você nunca tenha enxergado é que a sua mãe também jurou. Provavelmente fez a mesma promessa em relação à mãe dela, que por sua vez fez em relação à dela, e assim por diante. Vocês são uma fila de mulheres que prometeram não repetir e repetiram, não porque fossem más, mas porque ninguém nunca mostrou a elas o lugar exato de onde se interrompe esse ciclo.
A filha que ainda dirige a mãe
Chegamos aqui na parte mais difícil de enxergar, e também na mais libertadora.
A mãe que você é hoje, diante dos seus filhos adultos, ainda está sendo dirigida pela filha que você foi um dia. Aquela menina que cresceu na casa da sua mãe, e que aprendeu ali o que era amor, o que era cobrança, o que era medo e o que era silêncio, nunca foi embora de verdade. Ela continua decidindo, por baixo, como você reage quando o seu filho se afasta, quando ele grita, quando ele simplesmente some.
Por isso, quando você cobra dos seus filhos o reconhecimento que nunca chega, não é a mãe inteira que está cobrando, e sim a filha ferida que ainda espera ser vista. E quando você aguenta do seu filho o que nenhuma mãe deveria aguentar, aquilo não é amor de mãe, é a menina que aprendeu, lá atrás, que o lugar dela era engolir e não incomodar.
A primeira mulher que você foi, a filha, ainda está dirigindo a mãe que você é hoje. E, enquanto ela dirige, você não consegue ocupar inteiramente o seu lugar, então sobra espaço. E onde sobra espaço da mãe, é o filho quem acaba ocupando aquilo que não era pra ser dele.
Isso não é sobre culpar a sua mãe
Se você chegou até aqui sentindo raiva da sua mãe, ou afundando na culpa de si mesma, respira fundo, porque o caminho não passa por nenhum dos dois.
Culpar a sua mãe te mantém presa a ela, e se culpar te mantém presa ao mesmo lugar de menina que nunca dá conta, de modo que os dois caminhos, por mais diferentes que pareçam, andam exatamente no mesmo círculo. A tese é outra, e é fácil de dizer e difícil de viver: não importa quem está errado, importa onde cada uma está em pé. A sua mãe fez o que conseguiu a partir do lugar pequeno em que ela também ficou presa, e você está fazendo o que consegue a partir do lugar em que você ficou. Ninguém aqui é vilão, ninguém aqui é o culpado de tudo, mas todo mundo, sem perceber, está fora do próprio lugar.
E lugar, diferente de caráter, é coisa que dá pra mudar.
O que muda quando a fila se interrompe
Você não precisa consertar a sua mãe, nem precisa consertar os seus filhos. O que você precisa é fazer aquilo que ninguém antes de você na sua família conseguiu fazer, que é voltar para o seu lugar: parar de cobrar como filha ferida, parar de aguentar como menina apavorada, e finalmente se tornar mãe inteira.
Quando isso acontece, e eu vejo acontecer, alguma coisa se move no sistema inteiro sem que você precise convencer ninguém de nada, porque ninguém se afasta de quem está inteiro, e ninguém humilha quem está em pé. Não é uma questão de força, e sim de presença: o filho sente quando a mãe voltou para o lugar dela, mesmo que nenhuma palavra seja dita sobre isso.
E é aí que a fila se interrompe. Aquilo que atravessou tantas gerações encontra um fim na sua, e os seus filhos não herdam o mesmo juramento que você herdou, não porque você tenha sido uma mãe perfeita, mas porque você foi a primeira a parar e olhar.
Você jurou que não seria como a sua mãe. Talvez o caminho nunca tenha sido jurar contra ela, e sim fazer aquilo que ela não pôde fazer: enxergar de onde tudo isso vem e, enfim, sair do lugar. Esse é o trabalho, e ele começa no dia em que uma frase escapa da sua boca, você reconhece a voz, e, em vez de se afundar na culpa, se pergunta com honestidade: de onde, dentro de mim, isso ainda está falando?
Lisiane Cattani é psicóloga (CRP 12/05584) e há mais de duas décadas trabalha os vínculos familiares sob uma perspectiva sistêmica.