Sobre

Eu também já fui a mulher que se sentia perdida dentro da própria vida.

Sou Lisiane Cattani, psicóloga há mais de vinte anos. Construí a Ciência do Vínculo a partir de uma escuta clínica que veio depois de uma travessia pessoal. Antes de ser autora de método, fui filha. Fui mãe muito jovem. Fui mulher que se perdeu várias vezes. E foi exatamente esse caminho que me ensinou a sustentar o caminho de outras.

Lisiane Cattani · Psicóloga CRP 12/05584
Abordagem sistêmica familiar e Gestalt-terapia

Onde tudo começou

A casa que parecia uma coisa por fora.

Eu cresci em uma família que, vista de fora, tinha tudo. Éramos vistos como os ricos da cidade. Por dentro, era outra história.

Meus pais não tinham dinheiro próprio. A vida material da nossa casa se sustentava por linhagem, pelo trabalho do meu pai na empresa do meu avô paterno, pelo socorro recorrente dos meus avós maternos quando algo apertava. A gente vivia bem, mas vivia de empréstimo. E cresci entendendo, sem que ninguém me explicasse, que aquela aparência custava caro.

Meu pai, especialmente, não permitia que eu usufruísse de quase nada do que existia ao redor. A permissão era curta. O que se tinha não era pra ser desfrutado, era pra ser preservado. Eu cresci sem saber direito o que era receber sem culpa.

E essa proibição de aparência ia além das coisas materiais. Ela tocava também o corpo. A própria beleza não era algo que pudesse ser contemplada, cuidada, permitida. Eu fui crescendo entendendo, sem que ninguém me explicasse, que existir com brilho não era pra mim. Não podia me achar bonita. Não podia me sentir bonita. Não podia receber um elogio sem desdizer. E foi assim que minha autoestima foi sendo formada num lugar muito pequeno, debaixo de uma camada de discrição que beirava a vergonha de ser vista.

Hoje eu olho pra trás e entendo o que estava acontecendo. Aquela casa carregava uma cisão. Por fora dizia uma coisa, por dentro vivia outra. E eu, criança ali no meio, aprendi cedo a habitar a contradição. Não foi traumático no sentido óbvio. Foi mais sutil que isso. Foi formador.

Porque é exatamente essa cisão que eu encontro hoje, vinte anos depois, em quase toda mulher que se senta diante de mim na clínica. A mulher que parece dar conta de tudo, mas por dentro está em colapso silencioso. A que sustenta uma fachada. A que não sabe direito o que é seu e o que herdou. A que aprendeu cedo a não aparecer demais, a não receber demais, a não ser bonita demais. Eu reconheço de longe, porque um dia eu fui ela.

A invisibilidade dos treze anos

Quando eu tinha treze anos, meus pais se separaram.

E aí veio o que eu hoje consigo nomear, mas que naquela época era só sensação. Eu me sentia flutuando no mundo. Quase invisível para os meus pais.

Não foi rejeição ativa. Foi distração. Eles estavam atravessando a própria história, e a minha ficou fora de campo. Não houve orientação pra escolha de vida. Não houve conversa sobre o futuro. Minha obrigação era estudar, alcançar nota, passar. O resto eu resolvia sozinha.

Essa invisibilidade foi a minha primeira professora de presença. Porque foi ali que eu aprendi a olhar pra mim mesma quando ninguém olhava. E foi ali que começou a se formar, sem que eu soubesse, a mulher que mais tarde escreveria sobre vínculos. Não se escreve sobre vínculo do lugar de quem teve tudo. Se escreve do lugar de quem sentiu falta.

Como a psicologia me encontrou

Eu não escolhi a psicologia. A psicologia me escolheu.

Quando chegou a hora de prestar vestibular, eu disse que queria fazer odontologia. Mas, sinceramente, não era a vontade da minha alma. Era o que parecia razoável dizer. Coloquei psicologia como segunda opção, quase por descuido. Quase por intuição.

Quem se encantou com essa segunda opção foi minha avó materna, médica, mulher que conversava comigo sobre comportamento humano e sobre as profundezas da psique de uma forma que despertava em mim algo que eu não sabia ainda nomear. Não houve interferência direta dela. Mas as conversas tinham peso. E hoje eu sei que parte do que escutei naquelas tardes foi semente.

Passei. E entrei na psicologia. E me apaixonei.

Mas estudar psicologia naquela época, pra mim, não foi tarefa simples. Eu tinha um filho de dois anos em casa, o Lucas, e a faculdade ficava a 260 quilômetros de distância. O primeiro ano foi viajar todos os dias, ida e volta, pra estar em sala. Ninguém viu coragem ali. Eu também não. Eu só fazia o que precisava ser feito. Mas hoje, olhando pra trás, eu sei o que aquela mulher de vinte e poucos anos estava sustentando. E eu honro ela.

O caminho antes do método

Eu me casei aos dezessete. Tive o Lucas com dezoito. Me divorciei aos vinte e dois.

E aí começou um período que durou anos, longo demais, em que eu fui caindo em vínculos com pessoas que eu hoje chamo carinhosamente de almas sebosas. Relacionamentos com violência, com violência também patrimonial. Vínculos que me machucavam por fora, mas que falavam de algo que eu ainda não tinha enfrentado por dentro.

Porque a verdade é que naquela época eu não era boa comigo mesma. E quando uma mulher não é boa consigo, ela atrai gente que confirma essa narrativa. Não é destino. É padrão.

Minha vida financeira era um caos. Eu vivia com o nome sujo. Sentia um vazio enorme que não passava com nada. E minha vida profissional não deslanchava. Era como se eu vivesse procurando algo, sem saber direito o quê. No meio desse período, fiz Direito. Tirei OAB. Hoje não advogo, mas guardo aquele diploma como prova de que eu estava tentando me encontrar de todas as formas possíveis. Estudo era a forma que eu tinha de ainda acreditar em mim.

Em algum momento, com o Lucas pequeno, eu decidi mudar de estado. Deixar minha família, atravessar fronteiras geográficas e emocionais, e ir construir vida em outro lugar. Foi uma das decisões mais corajosas que eu tomei. E foi a primeira vez que eu fiz algo profundamente meu, sem permissão.

A vida não melhorou de repente. Levou tempo. Mas alguma coisa começou a se mover.

A travessia que virou método

A virada veio quando eu mergulhei numa formação em abordagem sistêmica que mudou tudo.

Foi ali que eu encontrei uma forma de olhar pra dentro que nenhuma outra escola tinha me dado até então. Uma abordagem que não trabalha com o sintoma. Que não trabalha com a queixa. Que vai direto pra raiz, pra origem, pra linhagem inteira que vem antes da gente e que segue operando, em silêncio, dentro de cada vínculo que a gente vive.

E aí aconteceu algo que eu não esperava. Antes de eu virar terapeuta sistêmica, eu virei a mulher curada por aquele trabalho.

Minha vida financeira se reorganizou. O amor chegou e dessa vez de verdade, com base firme. Os vínculos com a família se desemaranharam. Coisas que eu tinha tentado mudar com terapia, com cursos, com leitura, com tempo, finalmente se moveram. Não porque eu fiz mais força. Porque eu enxerguei de outro jeito.

Foi atravessando essa transformação na minha pele que eu entendi uma coisa. Aquilo que estava me curando precisava chegar a outras mulheres. Não como técnica que eu aprendi e ia repassar. Mas como travessia que eu tinha feito, e agora podia conduzir.

A Ciência do Vínculo nasceu daí. Da soma de duas décadas de clínica com a travessia pessoal que me reorganizou por dentro. Ela não veio dos livros. Veio do consultório, da minha própria história, e da escuta repetida de centenas de mulheres que me mostraram, sessão após sessão, que o que cura é o mesmo: olhar pra origem, ocupar o próprio lugar, soltar o que não é seu, e voltar pra casa.

A frase que sintetiza tudo o que eu acredito é simples. A forma como a gente se coloca na vida pode adoecer ou melhorar os nossos vínculos, seja com o outro, seja conosco mesmo. Mudar a posição muda tudo.

Quem eu sou hoje

Hoje eu conduzo o trabalho da minha vida.

Atendo clinicamente. Formo terapeutas. Construo conteúdo. Escrevo. E, em cada um desses formatos, faço a mesma coisa. Crio um espaço onde uma mulher possa, talvez pela primeira vez, voltar pra casa.

Às vezes a casa que ela nunca habitou. Mas que é ali onde ela pode amar, temer, arriscar, sofrer em segurança, porque ela sabe que o que sustenta essa casa tem base firme. É como se a gente pudesse tocar o amor. Materializar.

Esse é o trabalho. E ele só é possível porque eu também precisei voltar pra casa antes. Não falo de cima. Falo de dentro. Falo do lugar de quem atravessou.

Se você chegou até aqui, é porque alguma coisa em você reconheceu alguma coisa em mim. E talvez seja hora de você também voltar.

conhecer os caminhos de trabalho